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Jornal Online 'efepe' / sindical

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Tempo dos Reformados, por Henrique Pinto

por efepe, em 22.02.18

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Hoje, chegou-me às mãos a Edição 02, do Sindel Jornal, do mês de Dezembro de 2017.

Na ultima pagina, vem um excelente artigo de opinião do meu amigo Henrique Pinto, sobre o Tempo dos Reformados, escrito em Janeiro de 2018.

 

Não consegui deixar de o copiar, para aqui para o meu blog pessoal. Desculpa amigo.

 

TempoDosReformados1.png

 

São dezoito horas e três minutos deste dia cinco do primeiro mês do ano ainda tão jovem que nem sabe caminhar nem, como eu, dizer coisas que valham a pena. Coisas que se oiçam e se respeitem, como no passado a cidade respeitava o campo, os mais novos respeitavam os idosos e os filhos respeitavam os pais.

 

Hoje, tudo é fugaz e nem o tempo escapa ao valor transitório dos objectos e dos pensamentos. Só uma coisa fica: O testemunho da passagem do Homem por este terráqueo sítio. Testemunho bom? Testemunho mau? Eis a grande questão que nos devia pôr todos a reflectir.

 

Como sempre aconteceu na História da Terra, também deste período histórico vai ficar a nossa pegada ecológica e cultural, a qual ficará a marcar, para todo o sempre, como testemunho irrefutável, as nossas brincadeiras, as nossas asneiras, as nossas ambições, as nossas realizações, as nossas responsabilidades.

 

Mas aonde é que eu já vou! Fiquemo-nos só no nosso tempo e nas nossas memórias. Hoje, queria só lembrar que nesta hora deste dia de há sessenta e um anos, o comboio da Linha do Sabor estava a meter água na Estação de Lagoaça. Lembram-se, os que são do tempo das obras do Douro Internacional? Lembram-se, de como naquele tempo era difícil ganhar o pão-nosso de cada dia? Lembram-se, da chegada dos tordos quando o vento gélido soprava do lado dos Pireneus até gelar e rebentar com os canos da água? Lembram-se, dos gemidos contidos das crianças e da dor silenciada dos marteleiros?

 

Foi, camaradas e amigos, com a argamassa dessa pujante geração, espalhada por todo o território nacional, com cada um a fazer as suas coisas, com todos a fazerem a sua vida, que o nosso Povo construiu o grande sector nacional da Produção, Transporte e Distribuição de Energia Eléctrica, a EDP – Electricidade de Portugal – Empresa Pública, que o geria e pôs ao serviço dos portugueses e do desenvolvimento económico e social do nosso País, tornando assim possível a modernização do parque produtor, das redes de transporte e de distribuição da energia eléctrica.

 

Depois, mais tarde, haveriam de chegar as aves de arribação que haveriam de pôr a electricidade à venda nas tabacarias, ao lado das cautelas de sorte e azar, como se o fruto do nosso trabalho pudesse ser confundido com qualquer jogo ou batota, como se o negócio da electricidade pudesse comparar-se a jogos de casino. Mas ali, nos quiosques e tabacarias, ao lado das lotarias, dos jornais e das revistas, não estão só estes e a electricidade à venda; está também à venda o sangue, o suor e as lágrimas dos silicóticos, dos seus filhos e das suas viúvas; e estão também à venda vidas inteiras dedicadas ao serviço público.

 

Hoje, sabemo-lo, o tempo é outro. Já o poeta o dizia: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” (…) E outro logo acrescentava: “Para a mentira ser segura // E atingir profundidade // Tem que trazer à mistura // Qualquer coisa de verdade”.

 

E qual é a verdade? A verdade é aquilo tudo em mão cheia e é aquilo nada que foi feito pela parte obscura do Homem que não sabe sonhar e zomba de si próprio.

 

Hoje, camaradas e amigos, ainda podemos ser úteis se soubermos ouvir e gritar bem alto, até encontrar ouvidos que se incomodem com a nossa razão. Hoje, caros concidadãos, já não produzimos os bens de antanho, mas somos testemunhas dum tempo e grupo com energia para fazer respeitar a sabedoria acumulada.

 

Aqui, ali e acolá, há narizes torcidos por causa do desrespeito a que são votados. Aqui, ali e acolá, há desânimo face à impotência na luta contra o individualismo. Aqui, ali e acolá, o materialismo do salve-se quem puder, faz naufragar os espíritos mais generosos. Aqui, ali e acolá, à sombra das mais belas árvores das nossas mais belas praças, estiola-se a vida em jogos de cartas e na discussão dos golos de futebol. Até que, à vez, vai faltando um de cada vez, sem honra nem glória. Empurrados para o esquecimento.

 

E se, alternativamente, nos encontrássemos nas nossas organizações de classe? Se lá fôssemos dizer como somos esquecidos e tantas vezes maltratados?

 

O poeta disse: “Tudo vale a pena, // quando a alma não é pequena”.

 

Era capaz de valer a pena, não vos parece? E nós somos um sindicato vertical e reformista, logo… A cada um a sua palavra.

 

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